Simples assim: um poema em seis atos

foto

I
Toda vez que pensares em desistir da vida, feche os olhos e lembre-se da sensação dos dias bons.
E se não houver essas lembranças, desista.
II
Peço desculpas aos românticos.
Chega um tempo na vida em que não há como mistificar a realidade.
Se tá ruim, pode ser que piore. Pode ser que melhore. Quem saberá?
III
Sugestões dos outros são apenas sugestões dos outros.
No final das contas, quem vai se foder mesmo é você, com ou sem conselhos.
Ah! Isso é uma sugestão.
IV
Se o prato parecer indigesto, não coma.
A vida pode ser simples quando cremos nas obviedades.
V
Quando achar que nada mais pode dar certo
De repente você encontra um dinheiro perdido na rua
Bebe uma cachaça
E esquece a desgraça
VI
A verdade mesmo é essa:
Verdades não existem.
Escrito por Edna Telles, em 13/03/2015, às 04h28 em Lisboa (01h28 no Brasil)

Fonte da imagem: google imagens

Publicado em Uncategorized | Publicar um comentário

Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo

A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei.

Meu fado é o de não saber quase tudo.

Sobre o nada eu tenho profundidades.

Não tenho conexões com a realidade.

Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.

Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).

Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.

Fiquei emocionado.

Sou fraco para elogios.”

Manoel de Barros

Publicado em Uncategorized | Publicar um comentário

Fênix

fenix

E eis-me aqui.
Tão certo como a morte.
Nesse vale de lágrimas.
Talvez acreditar que é possível e sair nadando poderia ser uma forma de sobreviver.
Mas as lágrimas do vale são profundas.
E eu não sei nadar.
Esse vale é a vida.
Por quantas vezes terei que reviver numa mesma vida?
Uma Fênix que renasce das cinzas e suas lágrimas tem propriedades para curar qualquer tipo de doença ou ferida.
E então renascer, como símbolo da felicidade.

Edna Telles

Publicado em Uncategorized | Publicar um comentário

O livro sobre nada (Manoel de Barros)

 

Manoel de BarrosÉ mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

Publicado em Uncategorized | Publicar um comentário

Eu sei, mas não devia

(Marina Colasanti)

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

 

Sobre a autora

Marina Colasanti nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha,  A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant’Anna. texto acima foi extraído do livro “Eu sei, mas não devia”, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

Publicado em Uncategorized | Publicar um comentário

Psicanálise

 

Imagem

Fonte da imagem: http://thepopularfront.files.wordpress.com/2012/07/freud2.jpg

 

O inconsciente é que domina o mundo

 

 

O coletivo

 

O individual

 

Dura realidade para os que não acreditam,

 

esses mesmos guiados por manifestações do inconsciente.

 

A consciência é uma fantasia que vestimos

 

para a festa – ilusória – da vida

 

Mas não se engane

 

Não basta compreender que é o inconsciente que nos guia,

 

dura pouco essa pequena alegria

 

essa cara informação.

 

Pior ainda é responder à questão:

 

– E o que está por trás do inconsciente?

 

Pense. Mas não se mate.

 

 

 

Edna Telles

 

Publicado em Uncategorized | Publicar um comentário

Poema sem nome

É madrugada já

É madrugada ainda

Algo finda nesse curto período de tempo

Antes de adormecer

Depois de tanto pensar

O que finda?

Tudo o que é, ainda.

Não, não há lógica possível

há sim o intangível

o inimaginável

na cabeça do ser desumano por natureza,

construído a cada instante.

A cada ato impensado

A cada mão que acusa e abusa do sim

Sim ao incabível

Sim ao inaceitável

Sim à desgraça nossa de cada dia

Haveria alguma esperança?

Pra quê?

Se a mudança é tardia

Se o processo é longo

Eu quero o breve instante de morrer.

 

Edna Telles

Publicado em Uncategorized | Publicar um comentário